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Entrevista

UNE reforça seu papel como instrumento de conscientização

Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2015 - 11:41 - Atualizado em 27/12/2016 14:27
Fernanda Ikedo/Revista Ponto de Fusão

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Carina Vitral foi eleita presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) durante o 54º Congresso da entidade, realizado em junho de 2015
Carina Vitral tem 26 anos e um sotaque típico de quem nasceu em cidade litorânea. Natural de Santos, a estudante de economia foi eleita presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) durante o 54º Congresso da entidade, realizado em junho, em Goiânia (GO).

Antes de partir para Brasília para acompanhar e protestar contra a segunda votação da redução da maioridade penal na Câmara dos Deputados, no dia 19 de agosto, ela concedeu entrevista para a revista Ponto de Fusão.

Embaixo das árvores da Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), campus Perdizes, onde estuda, ela contou sobre sua trajetória no movimento estudantil e foi enfática ao defender a juventude como um setor muito especial da sociedade para a disputa da consciência político-social (e as ocupações de escolas ainda nem estavam em pauta).

Para ela, os jovens não estão apáticos, mas também frisou que há muitas mudanças e lutas pela frente para que o jovem de periferia, por exemplo, não reproduza o discurso das classes dominantes.

Revista Ponto de Fusão: Carina, conta como você começou no movimento estudantil. Você começou  em Santos?

Carina Vitral - Isso. Teve uma gincana de cidadania e na minha escola formamos um grupo multiplicador de jovens para falar do protagonismo juvenil. Então, foi assim que eu iniciei, mas nessa época eu não tinha consciência que o que eu fazia era política. Eu até falava que não gostava de política. Aí, comecei a perceber que eu dava opinião e era uma opinião política e um engajamento grande.

Conheci o movimento estudantil na universidade, na época, em Santa Catarina, e quando me transferi para São Paulo, fui presidenta da União Estadual dos Estudantes de São Paulo e, agora, eleita presidenta da UNE.

RPF - Você vem agora num mandato com grande representatividade de mulheres e de gênero. A que se deve essa ampliação?

CV - Ela reflete um pouco do empoderamento das mulheres que tem acontecido no movimento estudantil desde o CA (Centro Acadêmico), DCE (Diretório Central dos Estudantes, passando pelas UEEs (União Estadual dos Estudantes) e a UNE. A gente tomou uma decisão gerencial muito forte de empoderar as mulheres porque se uma mulher chega até um determinado estágio de liderança, na mesma condição que o homem, a mulher tem mais mérito, inclusive, porque é muito mais difícil, sendo mulher, enfrentar as adversidades e o machismo cotidiano. Pra gente isso é um critério também para concorrer à presidência da UNE e eu acho que uma outra questão é o fator simbólico da presidenta Dilma.

RPF - Como está a estrutura da UNE hoje? Como ela atua no Brasil?

CV - A gente é uma rede do movimento estudantil. A UNE é uma entidade nacional dessa rede que é composta por centros acadêmicos, DCEs e UEEs. A gente se organiza a partir dessas entidades de apoio, de base, para que a UNE possa existir. A diretoria da UNE é composta por 85 pessoas do Brasil inteiro. Além dos diretores por Estado, tem diretores por pasta, como diretores de universidade privadas, de universidades públicas, diretoria de cultura, esporte, assistência estudantil, entre outros temas. A nossa diretoria executiva se reúne perioicamente.

RPF - Quais são suas propostas à frente da UNE?

CV - Acho que a primeira proposta é lidar com esse tema da conjuntura política no país. A juventude é um setor da sociedade muito especial para a disputa de consciência. Ela faz toda a diferença, como mostrou em junho de 2013, e como vem mostrando que faz toda a diferença na disputa política da sociedade.

A juventude ganhou muito com a luta do movimento estudantil, mas também com um diálogo que a gente teve com o governo federal para ter direitos, mudanças e políticas públicas como o Prouni, Fies, as cotas nas universidades federais e ampliação e interiorização das universidades federais. O ensino técnico e uma série de políticas que fazem com que hoje a gente tenha mais oportunidades, em especial para o estudante de baixa renda, negros, indígenas, ou seja, uma diversidade maior da nossa sociedade.

Há 20 anos a PUC, por exemplo, era uma universidade muito mais elitizada. Hoje você vê negros, estudantes da periferia de São Paulo conseguindo estudar na PUC através de bolsas. Isso é um motivo que a gente precisa comemorar porque é fruto da luta do movimento estudantil.

Mas agora o desafio é despertar consciência nesses estudantes porque você tem uma sociedade mais mobilizada. Hoje, o jovem não fala que não gosta de política. Talvez, não goste dos políticos, mas ele gosta de falar sobre política e expressa suas opiniões políticas nas redes sociais. Mas o desafio agora é disputar o conteúdo para que os jovens se aliem às ideias mais progressistas na nossa sociedade.

O jovem da periferia, o jovem negro que entra na PUC encontra uma universidade ainda com um formato conservador porque a gente não mudou a qualidade da universidade e o conteúdo da universidade. Então, não é incomum quando um jovem da periferia reproduz a ideologia das classes dominantes.

A UNE é um instrumento forte para essa disputa de consciência.

RPF - Tem essa pauta estudantil, de inclusão nas faculdades, do acesso e; as pautas políticas que você citou, da ampliação da consciência política dos jovens. Nessas manifestações de rua da direita, elas expõem algumas coisas como o retorno da ditadura, uma falta até de embasamento histórico. Vocês sentem essas dificuldades com os jovens também?

CV - A gente tem como principal luta da UNE a defesa da democracia porque a história da UNE é a história da defesa da democracia. Os nossos líderes estudantis na época da ditadura morreram, foram torturados pela defesa da democracia, pela redemocratização do país. Portanto, é um valor simbólico muito forte e um valor que precisa ser percebido de forma permanente.

A UNE também já ajudou a derrubar um presidente da República por meio de um impeachment. Mas exatamente por isso a gente sabe que para ter um impeachment precisa ter crime de responsabilidade contra o presidente da República e que não é o caso hoje. Não tem sequer nenhuma acusação contra a presidenta Dilma e não existe, por exemplo, depósito na conta de propina, como existiu da mulher do Collor.

Hoje, a gente coloca a defesa da democracia porque qualquer derrubada na presidenta Dilma, sem crime, não é impeachment, é golpe. Agora, eu acho que os jovens não se encantam pelas ideias da direita. Se você for comparar a passeata de junho de 2013, que foi uma passeata liderada, essencialmente pelos jovens, com ideias progressistas e se você for comparar com a passeata da direita; é uma passeata completamente envelhecida, onde a média etária é 40 anos.

A gente tem que se perguntar por que o jovem não vai para as passeatas da direita? Por que o jovem não se embala no ‘Fora Dilma?' porque, na minha opinião, eles sabem que é uma disputa de poder. Quem quer derrubar a presidenta não quer fazer para melhorar a vida das pessoas, para dar mais direitos à juventude. A alternativa política à presidenta Dilma não é para aprofundar as mudanças, é para tomar o lugar dela e impor seus interesses econômicos.
Acho que é por isso que não encanta a juventude. Por isso, acho que o jovem não embarca na ideia do golpe. Apesar dos ditos líderes dessas passeatas serem jovens, mas são fakes [falsos, fabricados]. Quais as trajetórias dessas pessoas, o que que lutaram, surgiram da onde? São pessoas colocadas ali para dar um ar de juventude para essas passeatas.


RPF - Em relação às propostas de fomentar um debate social maior, há ações voltadas para a formação?

CV -É importante que a gente consiga disputar essas idéias, portanto, a própria participação no movimento estudantil é uma ação de consciência, mas também o debate - uma característica do nosso tempo é o debate, poder debater de forma clara e consciente em nosso país é um fator importante.

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