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Mulheres fazem história no movimento sindical dos metalúrgicos há décadas

Embora a luta dos metalúrgicos tenha, caminhando juntos, homens e mulheres, muitas vezes a trajetória das companheiras ficou em segundo plano no curso da história; dirigentes relembram suas atuações

Terça-feira, 16 de Março de 2021 - 12:13 - Atualizado em 16/03/2021 14:09
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carolzinha, 2021, imprensa, Reprodução - Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco
Mulheres metalúrgicas discutem necessidade de incluir a luta contra a discriminação de gênero na pauta da Campanha Salarial de 1989Reprodução - Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco
Historicamente, as mulheres estiveram à frente de muitas lutas pela classe trabalhadora. Seja nos movimentos de resistência ao sistema feudalista – em que os camponeses e camponesas faziam um trabalho exaustivo por um prato de comida – ou nas fábricas têxteis que foram o berço da economia no início da Revolução Industrial no século XVIII. Com o avanço da economia monetária e do capitalismo, os sindicatos surgem como uma forma de organizar e defender melhorias para os trabalhadores.

Na linha do tempo, em várias ocasiões as mulheres ocuparam esse lugar de luta, mas suas histórias, muitas vezes, ficaram esquecidas ou foram silenciadas. É sempre tempo de mapear e registrar essas lideranças e lembrar de sua importância. No segmento metalúrgico de Sorocaba e região, há registro da atuação das mulheres no movimento sindical desde a década de 1990.

Circe e Roseli são dois exemplos dessa atuação. Elas fizeram parte da composição do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região (SMetal) e foram pioneiras para sua época ao ocuparem um espaço que era bem mais “masculino”, uma vez que a categoria ainda tinha menos mulheres em sua formação.

“Durante a luta pelos nossos direitos tiveram momentos marcantes. Um deles foi quando, durante uma reunião sobre uma reinvindicação de salário, o gerente da empresa me agrediu fisicamente e me colocou para fora. Todas as funcionárias saíram de seus postos de trabalho em forma de sororidade por discordarem da agressão cometida por um dos patrões”. O relato forte é de Roseli Belarmino, que foi dirigente sindical entre 1997 e 1999 e relembra as conquistas para as mulheres na antiga Brasano. 

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Roseli fala sobre sua atuação no último encontro de ex-dirigentes, realizado no Sindicato dos MetalúrgicosFoguinho/Imprensa SMetal

Ela conta que a empresa tinha, mais ou menos, 200 funcionárias e as mulheres não possuíam piso salarial da categoria, não recebiam nenhum benefício e, até mesmo para ir ao banheiro, era necessário pedir uma autorização. Depois da movimentação sindical, as coisas melhoraram. “Tivemos melhorias de salário, conquistas de direitos como a hora do café, a não necessidade de pedir autorização para ir ao banheiro e, posteriormente, conseguimos convênio médico”, relembra Roseli.

Circe Ribeiro, metalúrgica da antiga Metal Yanes, foi a cipeira mais votada na época. Como muitos trabalhadores, a metalúrgica começou a ter ideia da dimensão da importância de lutar por direitos a partir de sua vivência na Comissão Interna de Prevenção à Acidentes (CIPA). Logo percebeu que era preciso mais. Concorreu ao mandato no SMetal como dirigente sindical e foi eleita. Uma das primeiras, assim como Roseli, a integrar o quadro da entidade.

“As mulheres eram tratadas como um número a mais de mão de obra dentro da empresa. Sem o reconhecimento de que eram diferentes dos homens e que tinham outras necessidades”, pontua Circe. Para ela, as principais conquistas foram: adequação e limpeza dos banheiros; instalação de duchas higiênicas; fornecimento de sabonetes, toalhas e espelhos, além de melhorarias no ambiente de trabalho com cadeiras que proporcionavam ficar na postura correta para cada pessoa.

Antes das lutas sindicais na Metal Yanes, faltavam ainda EPI’S (Equipamentos de Segurança e Proteção Individuais) e proteção nos maquinários que, na época, causavam graves mutilações aos trabalhadores do meio metalúrgico, como aconteceu com torneiro mecânico, e ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.

Luci Paulino (in memoriam)

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Luci deixa um legado de lutas e muitos exemplos para as mulheres no movimento sindicalDivulgação

Na última semana, o movimento sindical foi surpreendido pela triste notícia do falecimento de Luci Paulino Aguiar, vítima da pandemia da Covid-19. Ela foi metalúrgica e fez história, sendo a primeira mulher a ocupar um cargo na direção do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Na CUT, ela coordenou entre 1994 e 1997 a Comissão Nacional sobre a Mulher Trabalhadora, pautando importantes temas como creche e maternidade.

“Luci, por característica, era uma líder nata e formadora. As novas gerações de lideranças femininas do movimento sindical e partidário, do PT, e outros partidos progressistas, têm na pessoa dela um exemplo de companheirismo e dedicação à luta dos trabalhadores, mas, principalmente da emancipação das mulheres nas fábricas e na sociedade”, comenta Sérgio Verginio, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que trabalhou com Luci durante alguns anos.

Ele recorda a origem trabalhadora e aguerrida da companheira que, desde sua juventude, foi metalúrgica da Brosol (atualmente conhecida como Grupo Dana) e participou ativamente dos movimentos dos trabalhadores. Além de ter passado pelo Sindicato do ABC e pela CUT Nacional, Luci esteve à frente de política voltadas para as mulheres também na Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM-CUT), tornando-se uma referência nas políticas e formação da emancipação do movimento feminista das mulheres e dirigentes metalúrgicas em todo o Brasil.

"Luci é daquelas mulheres que jamais serão esquecidas, foi pilar fundamental na construção da luta das trabalhadoras. Seu exemplo ficará marcado em nossas ações e em nossos corações", escreveu a CUT-SP em nota oficial.

Nos dias atuais

Um último estudo divulgado pela subseção do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) dos Metalúrgicos de Sorocaba, mostrou que dos 37 mil trabalhadores metalúrgicos registrados no município e cidades adjacentes, 7.018 eram mulheres. Com esse número, é possível dizer que 18,81% da categoria é composta pelas trabalhadoras. Já no Brasil, há 350 mil mulheres ocupando postos nas metalúrgicas, formando 18,20% da categoria no país.

Hoje, as pautas das mulheres são outras. Já não é preciso mais reivindicar um banheiro feminino ou sabonetes e toalhas para as trabalhadoras, mas isso não significa que a luta acabou. Há muito o que avançar para as companheiras. Na próxima gestão, que vai de 2021 a 2025, o SMetal contará com seis mulheres entre os seus dirigentes sindicais. Elas trazem pautas femininas ao centro do debate e projetam, inclusive, a construção de um coletivo dentro da estrutura sindical para conversar sobre as mulheres nas fábricas.

“Nos próximos anos teremos mais participação de mulheres na diretoria do Sindicato e isso gera uma expectativa boa, pois serão mais companheiras pensando e dialogando. Um coletivo pode ser organizado para discutirmos as necessidades”, comenta Priscila dos Passos Silva, secretária de juventude da CUT-SP e dirigente sindical. Em entrevista, ela ressaltou ainda a importância da Convenção Coletiva dos Metalúrgicos e dos acordos como ferramentas de luta que serão utilizadas para a defesa dos direitos das mulheres trabalhadoras nos próximos anos.

Na concepção do presidente do SMetal, Leandro Soares, o espaço para as mulheres está aberto e deve ser ocupado. “Para nós, é mais do que importante que as mulheres estejam com a gente no movimento sindical e todas as portas estão abertas. Temos ótimos exemplos como a companheira Luci Paulino, que será sempre lembrada e serve de referência para a luta das mulheres. Desta forma, com mais paridade, poderemos continuar priorizando suas demandas e construindo, juntos, a luta pela classe trabalhadora", afirma.

 

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