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Mesmo ausente, FHC é escrachado por intelectuais em Nova York, e tenta negar golpe

Depois de fugir do maior Congresso de Estudos da América Latina no mundo, ex-presidente escreve carta para explicar impeachment, sem citar que plataforma deTemer foi reprovada nas urnas

Segunda-feira, 30 de Maio de 2016 - 14:14 - Atualizado em 27/12/2016 14:48
Rede Brasil Atual

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Apoio incondicional ao golpe que destituiu presidenta eleita democraticamente, foi duramente criticado por antigos colegas de intelectualidade de FHC
São Paulo - Alvo de uma petição de 499 intelectuais e de um protesto em Nova York neste fim de semana, que o fizeram desistir de participar de um debate acadêmico para evitar ser escrachado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) divulgou hoje (28) uma carta em que tenta negar que a presidente Dilma Rousseff tenha sofrido um golpe.

Vídeo publicado pelo coletivo Mídia Ninja no Facebook mostra a manifestação que fez o ex-presidente FHC fugir da sessão de abertura da LASA, maior Congresso de Estudos da América Latina no mundo. Espectadores se vestiram de preto, para manifestar luto pelo atentado contra a democracia atualmente em curso no Brasil.

Entoando palavras de ordem, acadêmicos, ativistas e intelectuais de todo continente mostraram, no coração de Nova York, que 'golpistas e fascistas não passarão'.

Em resposta ao escracho organizado por intelectuais de boa parte do mundo, FHC emitiu uma carta, rapidamente divulgada pela mídia tradicional. "Estranho golpe no qual ela continua na residência Presidencial, cercada de colaboradores e sob condições de segurança devidas aos chefes de estado, à espera de decisão do Senado", escreveu.

O ex-presidente não diz que o governo interino está colocando em prática um programa oposto ao vitorioso nas urnas e sem citar que uma série de áudios vazados para a imprensa revelam que a grande motivação dos parlamentares para o impeachment foi barrar investigações de esquemas de corrupção, sobretudo as da LavaJato, para não serem incriminados.

Leia a íntegra:

"Estimados colegas diretores da LASA:

Reitero meus agradecimentos pelo convite para participar da celebração dos 50 anos de LASA, instituição que acompanho desde seu nascimento e de cujas reuniões participei em algumas ocasiões.

Agradeço também a reafirmação do convite, feita diante de manifestações de pesquisadores e professores que, levados por paixões ideológicas, imaginaram que eu poderia aproveitar o evento para discutir problemas políticos locais, brasileiros. Os que me conhecem sabem que fui treinado como cientista social quando, a despeito de crenças e valores, os intelectuais procuravam manter a objetividade científica como um valor central em seus labores acadêmicos. Não obstante, a vaga ideológica existente em alguns setores universitários parece confundir, nos dias de hoje, a posição de ativistas com a de cientistas.

Fui e sou comprometido com valores democráticos no mundo e na politica brasileira. Exilado pelo golpe militar de 1964, obrigatoriamente afastado da Universidade de São Paulo pelos autoritários brasileiros em 1969, criei centros de resistência intelectual e política no Brasil (como o CEBRAP) e ajudei, quanto possível, a luta contra as ditaduras latino-americanas. Não só perdi a cátedra que tinha por concurso na Universidade de São Paulo, como sofri processos e fui levado a interrogatórios, com capuz na cabeça, em conhecido centro de tortura. Eleito senador na oposição ao regime, mais tarde, em momento de reconstrução democrática, fui relator-adjunto da atual Constituição. Sob ela, fui Chanceler, ministro da Fazenda (na época do Plano Real) e duas vezes eleito, por maioria absoluta, Presidente da República. Em nenhum momento desonrei nessa trajetória minhas credenciais democráticas.

Na conjuntura brasileira atual, setores políticos querem fazer crer que a Presidente Roussef, ao sofrer processo de impeachment (ainda em curso), procedido na estrita obediência da Constituição e sob a supervisão do Supremo Tribunal Eleitoral (oito dos 11 ministros foram nomeados pelos governos Lula ou Roussef), sofreu um "golpe". Estranho golpe no qual ela continua na residência Presidencial, cercada de colaboradores e sob condições de segurança devidas aos chefes de estado, à espera de decisão do Senado. Este só poderá afastá-la definitivamente se 3/5 dos senadores considerarem que, de fato, incorreu em desrespeito a regras fundamentais da Constituição. Até ao início do processo de impeachment, que pela Constituição depende preliminarmente da aceitação da acusação por 31 da Câmara dos Deputados) o governo Roussef dispunha do voto de cerca de 80% do Senado.

O pano de fundo deste processo foi o desvendamento de uma organização criminosa que desde o mandato do anterior presidente, uniu empresários, funcionários dos governos, políticos e partidos para aumentar o custo dos contratos públicos e desviar parte dos recursos assim ganhos para obterem votos e, eventualmente, riqueza pessoal. Processos objeto de condenação judicial ou que estão em tramitação na Justiça do país. Mais ainda, o desgoverno financeiro dos últimos dois anos levou à perda de oito pontos percentuais do PIB (algo nunca ocorrido na história), e 11 milhões de brasileiros ao desemprego, além de haver gerado uma dívida pública crescente. Os artigos constitucionais que foram feridos dizem respeito, entre outras, à desobediência da Lei de Responsabilidade Fiscal, graças ao que o governo Roussef utilizou recursos não aprovados pelo Congresso e mascarou a verdadeira situação fiscal do país durante o ano eleitoral.

Nada do acima referido, que motivou minha inclinação a aceitar o impeachment, tem a ver com qualquer questão que arranhasse os princípios democráticos.

Dito isso como explicação pessoal aos que me convidaram a aos que me apoiam, não pretenderia, reitero, utilizar a LASA para discutir essas questões, mesmo porque, como já dito, elas nada têm a ver com a questão democrática.

Peço apenas que compreendam que a esta altura da vida, aos 85 anos, não quero dar pretexto a espíritos radicalizados e imbuídos de paixão partidária a me usarem para uma imaginária luta "contra o golpe", um golpe que não houve.

Agradecendo uma vez mais o convite e desculpando-me por não dever aceittá-lo pelas razões expostas, subscrevo-me",

FHC

 

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