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Em entrevista, Sakamoto declara que é preciso educar para a internet

“Para muitos leitores não há diferença entre um meme de origem duvidosa, denúncia anônima e uma reportagem extremamente bem apurada quando o conteúdo vai ao encontro do que eles acreditam” (trecho do livro “O que aprendi sendo xingado na internet” de Leonardo Sakamoto)

Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018 - 15:04 - Atualizado em 23/02/2018 18:19
Fernanda Ikedo/ Imprensa SMetal

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Sakamoto afirma que será lançado um curso sobre fake news para junhoFoguinho/Imprensa SMetal
Em entrevista exclusiva à imprensa SMetal, o jornalista Leonardo Sakamoto aborda a intolerância e disseminação de ódio nas redes sociais, a preocupação em fomentar a discussão sobre possibilidades de um mundo melhor e como as fake news podem influenciar as eleições.

Para ele, a notícia falsa propriamente dita estará nas eleições, assim como vai ter muita manipulação, desinformação e hiperpartidarização.

Autor de “O que aprendi sendo xingado na internet”, Sakamoto relata o dia a dia da sua profissão como especialista em Direitos Humanos no Brasil.

Na entrevista concedida antes de sua palestra no Ciclo de Formação do SMetal – e que contou com 180 pessoas - enfatiza também que Temer está no poder para garantir que reformas que não passariam pelo crivo das eleições, fossem implementadas.

 

O submundo da internet

Imprensa SMetal: Seu livro foi escrito após diversas ameaças e perseguições sofridas por você sustentar suas convicções e defender direitos humanos. Principalmente, o fake news do jornal de MG que publicou uma entrevista falsa, em 2016. Com certeza, você continua sendo xingado e insultado. Jornalismo é um ato de coragem? Como você lida com essa perseguição e intolerância no seu dia a dia?

Leonardo Sakamoto: De certa forma eu já estou acostumado ao ódio e à intolerância no meu trato profissional diário, a sofrer tudo isso por conta da temática que eu resolvi abraçar. Eu sou um analista de política, um jornalismo que lida com política, mas dentre a política o tema principal são os direitos humanos. E tratar direitos humanos no Brasil é pedir para ser alvo de intolerância, de ódio e tudo isso mais, não apenas por conta de pessoas e grupos que resistem à ideia de garantir, conceder os mesmos direitos que eles têm a outros grupos vulneráveis e minorias, mas também pela ignorância a respeito dos direitos humanos.

Então, por conta disso você acaba ficando mais calejado. Desde as eleições de 2014 quando houve uma extensa polarização e depois de todo processo do impeachment, isso acabou piorando e é claro que não só pela questão do jornal mineiro* como por anúncios que foram pagos – pelo que revelou uma investigação – publicada pela Folha de São Paulo, foram pagos pelo JBS/Friboi contra minha pessoa também para me difamar em redes sociais. Todo esse pacote ele é um pacote que tem o objetivo claro que é o de tentar tirar credibilidade de quem tem uma voz à esquerda. Esse é um ponto interessante. Porque por mais que eu já tenha apanhado na rua, cuspiram em mim, fui xingado, fizeram das piores coisas, só que aquilo que mais preocupa é quando as pessoas tentam tira sua credibilidade pra fazer com que tua voz não valha, para fazer com que uma voz dissonante, dentro de um contexto conservador seja taxada como louca, como bandida, como corrupta. Essa é a forma com que as pessoas agem. Então, a resistência não é apenas continuar falando, mas a resistência é também manter-se firme diante desses ataques que tentam reduzir a importância da sua fala, do seu lugar. Eu acho que isso vale pra mim como jornalista, vale para quem atua no dia a dia do universo sindical, vale para professores, operários, economistas, vale para todo mundo que tenta trazer à discussão possibilidades de um mundo melhor.

 

Você afirma em seu livro que as pessoas estão perdendo a habilidade de ouvir o outro e que parte da discussão sobre o ódio, na internet, tem relação com isso. Como sensibilizar as pessoas de que há uma pessoa com sentimentos do outro lado e não um mero avatar?

Sakamoto: Olha eu defendo bastante a questão da alfabetização midiática. Eu acho que a gente deveria, nas escolas de ensino fundamental, nas de ensino médio, acho que deveria ser disciplina obrigatória dos alunos e alunas e, ou, no mínimo deveria ser um tema transversal e todos os professores trabalhassem com isso em sala de aula. Tão importante a ensinar as pessoas para ler e interpretar palavras e saber lidar com números, é ensinar a debaterem, a discutir publicamente e a construírem coletivamente significados. Isso significa ensinar as pessoas a viverem em sociedade.

Infelizmente, o Brasil está muito atrasado nisso. Eu acredito que no curto prazo tem duas instituições que são muito relevantes. Primeiro, claro, as escolas, mas a mídia é bastante relevante. A gente tem que ou cobrar da mídia tradicional e /ou atuar com mídias alternativas para ajudar a alfabetizar a população com relação à discussão na internet, a qualificar o debate na internet, a elevar esse debate na internet e deixar claro que ódio e intolerância vão levar apenas à destruição mútua e não a um lugar melhor.

É interessante que qualificação de debate é uma coisa que as pessoas acabam falando que ‘não dá para qualificar o debate com a pessoa que é violenta ou com aquela que pensa muito diferente’, dá. Mas, tem que ter paciência, você tem que ter conhecimento, trabalhar com dados. A pessoa vai te entregar xingamentos você vai entregar de volta, digamos, até uma certa dose de amor, além de conhecimento e informação. Mas, o importante nesse processo é você fazer com que a pessoa perceba que o entorno dela não aceita ódio, intolerância ou notícias falsa, ou desinformação. É importante que as pessoas entendam que o entorno, os amigos, a mesa de bar, o grupo de discussão na internet, a lista do chat, não aceita alguém que vai para cima, que é violento com alguma pessoa. Se você qualifica o debate a pessoa vai ser obrigada a agir de uma forma correta. É claro que esse processo não é fácil, nem simples, mas ele precisa ser feito.

 

Essas dicas também são válidas para a sociedade organizada no combate ao sedentarismo mental?

Sakamoto: Eu acho que sim, acho que a gente precisa combater o sedentarismo – não sei se o mental – mas o social. A gente precisa avançar na empatia. A gente precisa fomentar nos mais jovens a necessidade de sentir empatia, fomentar em quem está descobrindo agora o pensamento do outro – porque pensa bem, de repente, as pessoas viviam conectadas a grandes veículos de comunicação, às TV´s, simplesmente consumindo e não soltando informação, de repente, elas recebem nas suas mãos um smartphone com acesso à internet, tornam-se consumidoras de informação  ilimitada e ao mesmo tempo se tornam produtores de informação, só que eles não foram treinados e nem refletiram para consumir informações de forma crítica ou soltar a informação de forma responsável. Então, significa que as pessoas vão ter que ser lembradas, em algum momento, da necessidade de respeitar, de ouvir, de considerar que a informação que vem de terceiros não é uma loucura, mas tem o seu valor e de debater de uma forma dura, mas educada, não violenta, pensando no crescimento coletivo. Se você não conseguir considerar que do outro lado há uma pessoa de carne e osso e não um robô ou avatar você não vai a lugar nenhum. Então, a gente precisa fomentar a lembrança da empatia, de que o outro é uma pessoa que tem desejos, medos e interesses que podem ser diferentes dos seus, mas que merecem ser respeitados. E isso é muito difícil. Considerar o outro ou a outra como um semelhante que merece o mesmo respeito que você é uma coisa muito complicada porque você não consegue reconhecer aquele que pensa diferente de você  como alguém que teria os mesmos direitos que você. Esse exercício é fundamental. Se a gente não conseguir avançar nisso nos próximos anos, aí teremos um problema muito grave no futuro!

 

‘Não há soluções decentes fora da política’

Este é um ano eleitoral. O desenvolvimento de fake news tem se multiplicado. Você acredita que o eleitor estará preparado para separar o joio do trigo?

Sakamoto: Essas vão ser as piores eleições da história do país. Falar de fake news é de um fenômeno amplo. ‘Há mais houve fake news de veículos de comunicação há 20 anos’, é claro que boatos, notícias falsas existem desde a Roma antiga até anterior a isso, mas quando falamos em fake news estamos falando de um fenômeno específico que são informações construídas com o objetivo de manipular, produzidas num formato semelhante a notícias que são produzidas por veículos tradicionais que escondem, que mentem ou que encobre sua origem de uma forma anônima produzido digitalmente e reproduzido em redes sociais. Isso aí é o fenômeno da fake news.

O que entra no espectro desse fenômeno não é simplesmente a notícia falsa . As notícias falsas que são mais competentes elas atuam no âmbito da desinformação, utilizando, por exemplo, a técnica sanduíche, colocam cinco fatos verdadeiros, dois fatos mentirosos e mais cinco fatos verdadeiros. Se tem dez fatos verdadeiros a pessoa pensa “essa matéria tá correta”, só que tem dois fatos que, propositadamente falsos e construídos e colocados de forma que a pessoa absorva aqueles fatos porque ele conhece os outros 10.

Existe também notícias e conteúdos hiperpartidarizados que não são mentirosos, mas trazem interpretações extremamente partidárias daquele conteúdo. Então, são várias formas de que a manipulação e a desinformação podem correr online.

E terá também muita gente gritando com outras pessoas que não estão produzindo fake news porque você tende a achar que é mentira tudo aquilo com o qual você não concorda e verdade aquilo que você concorda, chamado viés de confirmação.

Todo esse analfabetismo jornalístico, midiático que a gente tem e todo esse campo amplo porque as pessoas não estão preparadas para consumo de massa de informação, nem em produção de massa por conta própria pode influenciar o resultado das eleições. Tanto para deputado, quanto para senador, governador e como para presidente .

 

Quais são os cuidados que o eleitor deve ter?

Sakamoto: A primeira dica é desconfie de tudo, não confie prioritariamente em nada. Veja os argumentos, veja as informações, procure as fontes e na dúvida, não compartilhe, não retuíte, não poste no Insta, não faça isso. No “Pequeno Príncipe” não fala que você é responsável por aquilo que cativas? Então, você é responsável por aquilo que tuitas (do Twitter)! E vai ser responsável legalmente, inclusive. Então, não passe adiante aquilo que você não confia, primeira regra. As outras regras: cheque a fonte, veja se a fonte é confiável. O que é confiável aquilo que acredito? Não, você pode até discordar. Mas, a fonte está dando a cara pra bater? Tem um endereço no site? Sabe se a pessoa existe? Tem uma empresa por trás? Tem outras dicas que são mais fáceis: a matéria traz fontes, nomes que vocês já ouviram; a matéria está escrita toda em caixa alta? Traz muita opinião ou mais dados e fatos?  Então, tome cuidado.

 

Em relação às ações de Temer, na sua percepção sobre o coletivo, o povo está tomando consciência de que foi um golpe e essas ações, um retrocesso?

Sakamoto: Muita gente está tendo consciência de que essas grandes reformas implementadas pelo governo Temer são retrocessos nos direitos humanos, trabalhista, ambientais e tudo mais. Isso está acontecendo. Elas estão percebendo que há retrocesso. Ao mesmo tempo muita gente está cansada :‘teve o impeachment, o que entrou é pior que o anterior’ e como faz? Porque é verdade que o impeachment foi todo um processo extremamente exaustivo para o país. Muita gente está deixando de acreditar na política e a apoiar pessoas que pregam a antipolítica, o que é um completo absurdo. Um dos problemas do impeachment foi esgarçar as instituições de uma tal maneira, forçar a Dilma para fora, desrespeitou-se leis, exagerou-se julgamentos e tudo isso mais, a ponto que as instituições foram tratadas como gato e sapato. Como consequência disso a população deixa de acreditar nas instituições.

O problema é que não há soluções decentes fora da política. A política é a mais importante das atividades humanas porque é a forma de tornarmos possível a vida em sociedade. É como poder garantir que as pessoas vivam em sociedade sem se matarem mutuamente. Esse é o objetivo da política. É a Àgora, você poder discutir a vida cotidiana e sem isso, você vai ter o que? Personagens que são autoritários, que vão impor sua verdade e que vão esvaziar os debates populares.

Parte da população está deprimida, outra parte prostrada, outra bestializada na frente da TV vendo tudo isso passar e uma parte da população está acreditando em salvadores da pátria, que eu espero que não ganhem a eleição.

 

O trabalho frente à Reporter Brasil

Como vocês estão trabalhando na ONG Repórter Brasil as pautas conservadoras como a Reforma da Previdência e questões do trabalho escravo?

Sakamoto: A Repórter Brasil atua desde 2001 em identificar violações aos direitos trabalhistas, sócio-ambientais. O trabalho escravo a gente atua desde então, tráfico de seres humanos, trabalho infantil. Os últimos dois, três anos, depois que Temer assume a gente faz uma análise de conjuntura e coloca desde sempre que o ataque central ao período Temer será a desregulamentação do trabalho. Ele foi eleito para fazer o ataque ao trabalho. Foi eleito para proteger políticos que estejam sendo alvo da Lava-Jato, proteger o próprio rabo, mas também garantir que reformas que não passariam pelo crivo das eleições, fossem tomadas.

Desde o começo a Repórter Brasil passou a monitorar as duas principais reformas para garantir informações para os atores sociais, econômicos e políticos para que fizessem os debates necessários para isso. Debate que foi abortado pelo governo, que não interessava torná-lo público. Nós tivemos vitórias, na questão do trabalho escravo nós conseguimos bloquear tentativas de acabar com o sistema de combate ao trabalho escravo por parte do governo, mas é claro que nas reformas falou mais alto os interesses econômico e político.

 

“A ideia da luta por justiça social e dignidade e o combate à desigualdade segue viva com movimentos, coletivos e organizações. Com pessoas conversando, reconhecendo-se na opressão e tomando as rédeas da sua própria vida e da vida dos lugares onde vivem. Para alguns, isso é reconfortante. Para outros, desesperador” (trechos do livro de Sakamoto, pág. 46).

 

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