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Crise na Argentina impacta produção de Sorocaba

O economista da subseção do Dieese dos Metalúrgicos de Sorocaba, Fernando Lima, explica a dependência da produção local à exportação argentina e em entrevista, o analista político argentino Julio Gambina comenta sobre os fatores que influenciaram a atual crise no país vizinho.

Quinta-feira, 30 de Maio de 2019 - 14:24 - Atualizado em 03/06/2019 09:34
Fernanda Ikedo/ Imprensa SMetal

, Reproducao da internet
Professor argentino de economia política Julio Gambina concede entrevista por email e descreve os fatores da atual criseReproducao da internet
A Argentina é o principal destino das exportações, correspondendo a 47,71% do total de Sorocaba, de acordo com dados de 2018 do Ministério da Economia, e o terceiro do país.

Entre os itens do grande leque de produtos industriais que são exportados para a Argentina - que sofre uma recessão agravada pela política neoliberal do governo Macri - estão automóveis, máquinas agrícolas, autopeças, fios e cabos, entre outros itens metalúrgicos, que representaram 621 milhões de dólares, correspondendo a 94,70% do total dos itens exportados, em 2018.

O economista da subseção do Dieese dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região, Fernando Lima, explica que qualquer oscilação na Argentina repercute efetivamente na economia brasileira, por consequência na produção industrial de Sorocaba, devido a essa dependência nas exportações.

Agravamento da crise

Em entrevista à Imprensa SMetal, o analista político e professor de economia política da Universidade Nacional da Argentina, Julio C. Gambina, conta que a recessão em três dos quatros anos do governo Macri empurrou o índice de desemprego a 10%, que convive com 35% de trabalhadores em situação irregular, sem acesso à seguridade social e 33% do povo na pobreza.

Gambina ainda destaca que a promessa de acabar com a pobreza no início do governo Macri se esvai com o processo crescente de aumento de preços e da recessão em curso. “A política econômica pretende ser reforçada com reformas trabalhistas e ações de natureza regressiva que agravariam a situação da renda dos trabalhadores. Mas tudo isso está contido no acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI)”.

Impacto direto

Em Sorocaba, a crise do país vizinho, juntamente com a estagnação da economia brasileira e a falta de política de desenvolvimento industrial, atinge a montadora Toyota, que chegou a anunciar a demissão de 340 trabalhadores.

Para minimizar esse impacto, os dirigentes sindicais do SMetal estão em mesa de negociações para impedir a retirada de direitos, inclusive, “construindo uma contraproposta para a empresa, visando novos investimentos (novos produtos) para a planta de Sorocaba”, pontua o presidente do SMetal, Leandro Soares. Neste sábado, dia 1º, às 9h, haverá plenária com os trabalhadores da Toyota, no Sindicato.

 

Confira abaixo a entrevista completa com o professor de economia política na Faculdade de Direito da Universidade Nacional de Rosario, na Argentina, é presidente da Fundação de Pesquisas sociais e políticas (FISYP).

Imprensa SMetal: Quais os fatores que desencadearam a recente recessão da Argentina?

Julio Gambina: No diagnóstico do governo, baseado numa lógica monetária ortodoxa de política econômica, para conter a inflação reinante, a economia teve que ser esfriada. Os dados do aumento de preço de 2016, o primeiro ano do governo Macri foi de 40%, caiu para 24,8% em 2017 e subiu para 47,6% em 2018.

O acumulado de um ano até abril de 2019 atinge 55% e estima-se que 2019 pode exceder 40%. A Argentina tem uma das maiores taxas de inflação do mundo.

A receita oficial, de acordo com o monetarismo ortodoxo, supõe uma forte contração monetária , razão pela qual foi acordado com o FMI restringir a questão monetária para zero no ano fiscal corrente, junto com o qual um forte endividamento do Banco Central é estimulado para o atual ano fiscal, junto com o qual o Banco Central está fortemente endividado com títulos públicos (primeiro LEBAC, faturas do Banco Central, então LELIQ, Notas de Liquidez), enquanto aumenta o custo do dinheiro, uma vez que a taxa de juros paga pelo BCRA para retirar dinheiro de circulação é de mais de 70% ao ano, convocando especulação exacerbada e transformando a taxa de juros para crédito em usura, agravando o efeito recessivo.

Ao mesmo tempo, a inflação é atribuída ao elevado déficit fiscal, que induz um ajuste fiscal com redução nos gastos e investimento público para reduzir e eliminar o déficit fiscal. É a política econômica que gera a recessão, sem entender que a inflação é um processo de disputa de riqueza socialmente gerada pelos setores de poder econômico.

É a política econômica que gera a recessão, sem entender que a inflação é um processo de disputa de riqueza socialmente gerada pelos setores de poder econômico.

Imprensa SMetal: Quais são as saídas que apontadas pelas lideranças de oposição?

Julio Gambina: A oposição com a possibilidade de governar é dividida. Em primeiro lugar, trata-se do peronismo, que pelo menos até agora atua em dois grandes espaços políticos.

Uma é a recente aliança eleitoral entre o Partido Justicialista e a Unidade do Cidadão, liderada por Cristina Fernández de Kirchner. Esta aliança inclui 18 pequenos grupos e partidos políticos. O outro setor peronista envolve a Federal Alternative, um espaço que envolve governadores de províncias.

Ambos poderiam convergir, mesmo alguns destes com o primeiro. As duas propostas reconhecem o acordo com o FMI, embora imaginem uma renegociação a fim de minimizar o importante ajuste derivado do cancelamento de pagamentos da dívida do próximo ano. Parte da Federal Alternative tenta constituir um espaço entre o governo e o kirchnerismo, com outros setores políticos e liderança pessoal do ex-ministro da Economia de Néstor Kirchner: Roberto Lavagna.

Alguns imaginam isso como um meio termo com possibilidades de romper a fenda entre o Macrismo e o Kirchnerismo. Nenhum desses setores questiona o modelo produtivo de sojización, incentivo à exploração e exportação de hidrocarbonetos e produtos de mega-mineração a céu aberto;

nem o caráter dependente da indústria local, a rigor, um arsenal subordinado ao capital externo. Em qualquer caso, pretende-se moderar o ajuste com algumas medidas de distribuição de renda sem afetar o modelo produtivo em desenvolvimento. Existem outros setores sem a possibilidade de ser um governo, tanto à direita quanto à esquerda do arco de partidos que competem eleitoralmente.

Impresa SMetal: Esse ajuste fiscal aplicado pelo governo Macri tem aumentado o desemprego?

Julio Gambina: Sem sombra de dúvida. A recessão em três dos quatro anos do governo Macri empurrou a taxa de desemprego para 10% atualmente, o que coexiste com 35% dos trabalhadores em situação irregular, sem acesso à seguridade social. Os dados são completados com um 33% da pobreza. Neste ponto, um processo de crescente empobrecimento da população é consolidado, onde não basta ter um emprego para não ser pobre.

A promessa de zero pobreza no início do governo Macri desaparece no processo de aumento dos preços e da recessão em curso.  A política econômica pretende ser reforçada com reformas retrógradas do trabalho e pensões que irão agravar a situação da renda das pessoas, tudo isso contido no acordo com o FMI.

Imprensa SMetal: Você tem acompanhado a crise no Brasil? Se sim, vocês acreditam que há uma relação com ada Argentina?

Julio Gambina: O processo compartilhado é a crise global do capitalismo desde 2007/09, exacerbada pela chegada de Donald Trump ao governo dos EUA, que está empurrando uma política que favorece governos de direita na região da América Latina e do Caribe para refazer o caminho da mudança política desde 1999 com a chegada de Hugo Chávez ao governo da Venezuela e aos diferentes processos regionais que significaram o não à ALCA e a outras propostas de subordinação sustentadas desde Washington para a região.

Nas últimas décadas, tanto o Brasil quanto a Argentina avançaram na internacionalização e concentração da economia, com a primarização de suas exportações e desenvolvimento crescente da dependência econômica, tecnológica e financeira. O resultado compartilhado é a deterioração das condições de vida da maioria da população nos dois países.

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