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Crise hídrica: falta de gestão pode afetar indústria em Sorocaba, diz especialista

Represa de Itupararanga, que abastece 85% de Sorocaba, está operando com 22,18% da capacidade. Para especialista, clima e estiagem não têm culpa, mas sim falta de política pública.

Segunda-feira, 11 de Outubro de 2021 - 10:45

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Indústria e população podem sofrer com uma nova crise hídricaRafael Neddermeyer/Fotos Públicas
“Clima e estiagem nunca têm culpa”, diz André Cordeiro, vice-presidente do Comitê das Bacias Hidrográficas do Rio Sorocaba e do Médio Tietê  e professor da UFScar Sorocaba, sobre um possível racionamento de água. Para ele, são as políticas de controle sobre o consumo que definem o quanto um município ou uma região podem sofrer com a crise hídrica.

Sorocaba é uma das cidades que correm esse risco caso a situação dos reservatórios não melhore. É que o nível da Represa de Itupararanga, que é a principal fonte para o abastecimento da cidade, está operando com 22,18% da capacidade, segundo dados do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE). Em menos de 100 dias, a represa pode entrar no volume morto.

No dia 27 de setembro, dez municípios da região declararam estado de alerta hídrico. Além de Sorocaba, assinaram o documento: Alumínio, Cerquilho, Ibiúna, Laranjal Paulista, Mairinque, Piedade, Salto, São Roque e Votorantim. A medida, segundo o grupo, tem como objetivo reforçar a necessidade de economia por parte da população para minimizar os efeitos da estiagem.

Apesar da situação, segundo o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae), só 1,29% da água distribuída é utilizada pelo setor industrial em Sorocaba. A maior parte do consumo é de residências, que chegam a consumir 89,17% da água tratada na cidade, 6,21% é do comercial e outros 3,33% referem-se às demais categorias.

André Cordeiro explica que muitas indústrias têm captação direta de água superficial ou água subterrânea e realmente não captam diretamente do Saae, mas faltam informações. “Captam de outras fontes e muitas vezes despejam seus afluentes na rede do Saae. Essa relação ainda não é clara. Tem atividades semi-industriais que acontecem em área urbana, mas que produzem efluente, como por exemplo, oficinas mecânicas, pequenas oficinas de costura, esse tipo de coisa. E você tem um grande conjunto de atividades comerciais que não entram nessa conta. Isso deveria ser mais claro, mas não temos dados”.

As indústrias têm reduzido seu consumo melhorando seu processo interno , mas para o especialista, não existe atividade econômica sem água. “A água de superfície e subterrâneas estão ficando mais difíceis de encontrar. Aqui na nossa região elas são interligadas, ambas são ‘recarregadas’ pela chuva. Quando falta uma, falta outra. Não dá pra desassociar esses dois processos. Então com certeza as indústrias devem estar comprando água de outros fornecedores. E lógico, também essa compra de água está sujeita às relações de mercado. Pode afetar a indústria de uma forma ou de outra, mesmo aquelas não ligadas às redes do Saae”, conclui.

O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP) afirma que, com a interligação dos sistemas produtores, a região do Éden, onde concentram-se as indústrias do município pode ser atendida por três estações de tratamento: Cerrado, Éden e Vitória Régia. Além disso, em todo o Estado de São Paulo, cerca de 86% das indústrias práticas de reuso de águas e efluentes e contam com boas práticas de conservação; e que trabalha para “promover tratativas com empresas e indústrias para incentivá-los a adotar medidas que resultem na redução no consumo de água proveniente do sistema público de abastecimento, inclusive, verificando, outras fontes alternativas”.

Tem solução

Para Cordeiro, há mecanismos que podem garantir a distribuição. “A gente sabe a partir do conhecimento científico acumulado que esses períodos de estiagem tendem a ficar mais intensos e prolongados, que são mundiais, mas intensificadas no Brasil por desmatamento da Amazônia, de áreas nas bacias hidrográficas, redução de áreas de proteção permanentes. O que precisa ser feito é que a gestão pública desse recurso leve em consideração a questão ambiental e essa variação climática. Nós temos mecanismos para gerir essa água nos períodos mais intensos e ter água mesmo em períodos de estiagem extrema”.

A maior parte dos municípios e das empresas geradoras de energia, não consideram essas mudanças. “No caso dos municípios é uma consideração por ignorância do processo, no caso das geradoras é uma questão de produção de lucro. Quanto menos água no reservatório, mais dinheiro elas ganham. Precisamos de mecanismos de gestão que contrabalancem o lucro das geradoras de energia coma necessidade de água para o consumo humano. É isso que não está sendo feito”, reforça André.

Papel do Comitê

O Comitê das Bacias Hidrográficas do Rio Sorocaba e do Médio Tietê tem discutido com todos os envolvidos, setores público e privado, a manutenção do reservatório de Itupararanga, que é o reservatório que regula o volume de água do Rio de Sorocaba e é importantíssimo para o abastecimento. "Quase um milhão de habitantes dependem dessa bacia. O comitê tenta preservar a água do reservatório de Itupararanga, diminuindo a saída de água do reservatório e consequentemente diminuindo a vasão do Rio Sorocaba. Ainda não estamos numa restrição de captação, mas isso está próximo de acontecer", explica Cordeiro.

Para ele, ainda é difícil convencer o poder público. "O Comitê discute no sentido de manter o reservatório e de reduzir o consumo de água, na agricultura, na cidade e na indústria que faz captação direta de água de superfície. É muito difícil convencer o poder público sobre as medidas mais rigorosas, porque nenhum prefeito se sente a vontade de levar notícia tão ruim para a população, mas a natureza, a realidade vai se impor e todas prefeituras terão que fazer ações para reduzir o consumo também porque não vai ter água", afirma. 

O Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) informa que, no dia 8 de setembro, o Sistema Castelinho/Ferraz opera com 55% da capacidade total e o Sistema Ipaneminha, com 75%. De acordo com os dados do DAEE, a represa de Itupararanga opera com 22,18% da capacidade.

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