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2ª Mostra de Cultura e Arte Negra: reflexão e resistência foram destaques

Evento foi organizado pelo Coletivo Racial do SMetal em comemoração ao mês da Consciência Negra; atividade reuniu lideranças, ativistas, artistas e empreendedores negros e negras na sede da entidade

Domingo, 28 de Novembro de 2021 - 20:46 - Atualizado em 30/11/2021 15:58
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O Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba (SMetal) promoveu a 2ª Mostra de Cultura e Arte Negra Ubuntu SMetal, na sede da entidade, no sábado, 27. O evento marcou mais uma comemoração do mês da Consciência Negra. A parte da manhã foi dedicada uma grande roda de conversa, que promoveu discussões importantes a respeito da realidade do povo negro, enquanto a parte artística e de culinária era preparada para o começo da tarde e fim de noite. VEJA AS FOTOS AQUI!

Everton da Silva Souza, um dos dirigentes do SMetal e representante do Coletivo Racial da entidade, foi um dos que estavam à frente do evento, e ressaltou a importância da retomada dos eventos presenciais no contexto das lutas raciais. "Primeiramente a saúde de todos, aqui estão todos estão vacinados e respeitando os protocolos de segurança. É a saúde do povo preto em primeiro lugar. A gente tem que fazer eventos como essa mostra como mais uma prova de sobrevivência e resistência do nosso povo. A retomada das temáticas de lutas e ativismo também tem que rolar com a volta da galera em festas. Mais que apenas sobreviver, chega de sofrimento", explica.

A Mostra trouxe nomes importantes do cenário para discutir assuntos relevantes da história do povo preto, como representantes do Movimento Antirracista de Sorocaba, da CUFA Sorocaba, Levante Popular da Juventude, além de empreendedores, ativistas e artistas negros e negras da cidade e também de outros municípios.

Entre eles, Daniel Calazans, secretário geral da Central Única dos Trabalhadores São Paulo (CUT-SP). Em sua fala, jogou luzes sobre a crononologia do apagamento sistemático do povo preto desde que o Brasil começou a ser invadido pelos europeus.

Debates da realidade negra no Brasil

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Daniel Calazans, secretário geral da CUT-SP, participou da Mostra

"Os tempos são difíceis. O cenário pós-Golpe de 2016, com perdas de direitos trabalhistas, perseguição ao povo preto, LGBTQIA+ e até a cultura religiosa, agora são acompanhados de negacionismo científico. Todo nosso acúmulo de conhecimento prático e histórico de lutas e conquistas está sendo esmagado", explica Calazans.

Calazans ainda faz as ligações das lutas sindicais do início de 1900 e sua aproximação ao Movimento Negro, até a Constituição de 1988. "A consciência sindical dos trabalhadores nasce com o amadurecimento da indústria, que ganha mais e exige mais dos operários, sem oferecer contrapartidas justas. E ela abraçou reinvindicações do movimento negro, que estão na base de uma pirâmide das mais injustas da história".

Ele completa que: "todos os problemas que o povo negro teve foram contrapostos por pequenos avanços democráticos, à custa de muita luta. Essa é a parte mais interessante de nosso povo. A capacidade de ressurgir do extermínio. Exaltar a cultura negra em eventos como essa Mostra é resgatar nossa identidade. Nossas artes sobrevivem, as do corpo, samba, melodia, carnaval."

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José Laelson de Oliveira, o Leo Superliga, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC
José Laelson de Oliveira, o Leo Superliga, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista (cidades da Grande SP), também esteve no evento. "Os temas de debates raciais não podem acontecer apenas em novembro, devem ser ordem do dia. O racismo, antes velado, agora é declarado, e infelizmente mais nítido hoje do que foi antes. Quem está no poder agora mostra todos os caminhos errados", analisa. "Conversar com a base é falar da resistência do povo preto, da classe trabalhadora, da retirada de direitos", comenta Léo.

Outra presença de destaque na Mostra Negra do SMetal Sorocaba foi o Ciro do Hip Hop, de Campinas. Atuante há quase 30 anos no meio artístico musical da cidade, ele destacou a importância da ajuda política e estruturante do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas para o hip hop campineiro.

"Quando o hip hop começou na cidade, o Sindicato veio para o corre junto. Eles queriam verdadeiramente entender a importância do movimento. Isso nos deu também mais consciência da classe política, onde estamos todos inseridos. Isso deu bagagem para entender as lutas de classe, a importância da luta sindical, e defender a potência de tudo isso é muito importante. Quando eu comecei nisso, levei a discussão para minha família, todos meus amigos, todos que eu conhecia. Mostrei a importância dos sindicatos."

Culinária africana em destaque

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Produtos d Afromaxima são 80% afro e contam com diversas parcerias

Além das tradicionais feijoada e acarajé, a Mostra do SMetal trouxe novidades para os visitantes do evento. A empresária Juliana Venâncio Narciso apresentou os produtos da Afromáxima, loja de produtos panafricanos, instalada na Galeria Santa Clara, uma das mais tradicionais da cidade, localizada na Rua Padre Luiz, talvez a via mais conhecida dos sorocabanos. Seus produtos são 80% afro e contam com diversas parcerias. "É um desafio empreender, mas fizemos com a certeza da qualidade do que temos", explica Juliana, que trouxe para o evento algumas degustações de seus produtos.

Entre eles, um vinho da África do Sul, o Sweet Rhino, que faz muito sucesso nos círculos de consumo da Europa, e cervejas da primeira cervejaria preta do Brasil, os gaúchos "Os Implicantes", que estampam nas garrafas artes de personalidades do mundo negro. A cozinha da Afromáxima também trouxe pesto de rúcula e antepasto de cogumelo. As assinaturas culinárias da casa são por conta das chefs Iná e Aline Chermoula, uma das mais prestigiadas do país, com reconhecimento internacional.

Roupas como resgate étnico

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O artista angolano Pupa Kanda mora em Sorocaba desde 2016
Outro destaque foi a venda de tecidos originais africanos, oriundos do Congo e de Angola. O artista angolano Pupa Kanda mora em Sorocaba desde 2016, e estava com uma tenda expositora dos produtos. "A questão do tecido faz parte de um processo de resgate étnico africano. O tecido ("mulele", pano em português) vem para atender o padrão do corpo afrodescentente. Os padrões P, M e G não cabem muitas vezes em nossos corpos, e os tecidos vem para desconstruir esse padrão", explica Kanda.

Os tecidos são vendidos em 3 peças, de 5,5m cada. Originalmente, eram dados como dotes no casamento, para o pai, mãe e até tia da noiva. As peças de roupa podem ser encontradas no Ateliê & Brechó Villa Theolinda, em Sorocaba, numa parceira com a artista Jessica Hiroko. Kanda também é músico, com projetos como Kamuflow e Afrosom.

Capoeira e música

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Atividade teve, entre outras, oficina de capoeira

A roda de capoeira ficou por conta do Mestre Miguel, que desde 1994, quando conheceu a arte da luta, se apaixonou pela temática e sua história. Em 2003, quando conheceu o Mestre Gato Preto na cidade paulista de Santo Amaro, abraçou a capoeira de Angola, uma das várias correntes do estilo. "A capoeira começou a ficar famosa no Brasil em 1937, quando foi retirada do Código Penal, já que era enquadrada como vadiagem. Sempre vi a capoeira como uma defesa das culturas e religiões afro. Hoje ela também tem esse papel, a despeito do embranquecimento. Temos sempre que elevar sua origem preta", explica.

Junto a tudo isso, a parte final da 2ª Mostra de Cultura e Arte Negra Ubuntu SMetal contou com vários shows, entre eles do rapper Mr. Brown, o soul do DJ Ghu, as aulas e danças do Ponto 3 Samba Rock, o ritmo da roda de samba do Flavinho Batucada e o encerramento o Firma o Ponto, que sempre apresenta várias referências musicais de raízes africanas e de rodas de samba tradicionais do Brasil.

A entrada para o evento foi um quilo de alimento não-perecível. Todo os produtos arrecadados são destinados para campanha Natal Sem Fome 2021

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