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A classe trabalhadora não vai ao paraíso

Quarta-feira, 06 de Julho de 2016 - Atualizado em 27/12/2016 11:52

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Em 1971, Elio Petri lançou sua obra clássica, A Classe Operária Vai ao Paraíso, filme que ilustrou o modelo taylorista como sistema estruturado para extrair produtividade dos trabalhadores e o controle do operariado a partir do tempo cronometrado.

O modelo de trabalho Taylorista e fordista permitiu o controle e a extração de mais trabalho e o aumento significativo das taxas de lucro que, por sua vez, entrou em crise na década de 1970. Houve a necessidade da reorganização do modo de produção para além deste modelo de racionalização, controle científico do trabalho, produção e consumo em massa que, naquele contexto, com a queda das taxas de lucro, entrou em crise.

A denominação conhecida pelos sociólogos, Reestruturação Produtiva, foi a forma de reorganização das relações de trabalho a fim de extrair mais trabalho e mais valor dos trabalhadores com a diminuição do tempo na produção de mercadorias e, concomitantemente, maior produtividade. Assim, ocorreu primeiramente nos países centrais do capitalismo europeu, além dos Estados Unidos e Japão, uma introdução de novas tecnologias que avançaram no desenvolvimento da maquinaria e uma dispersão do trabalho vivo, ou seja, os trabalhadores.

O professor da Universidade de Campinas, Ricardo Antunes, apontou que, na década de 1970 e 1980, o número de trabalhadores na indústria europeia reduziu-se drasticamente, assim como a queda de sindicalização. Por outro lado, trabalhos precários aumentaram significativamente nas últimas décadas com a expansão do setor de serviços. Soma-se ainda o advento do modelo toyotista, que permitiu uma descentralização das funções e o regime Just-time, além da tentativa de desmonte do Welfare State e as políticas neoliberais promovidas por Ronald Reagan e Margareth Thatcher por meio de reformas no interior dos aparelhos de Estado que privilegiaram a expansão da especulação financeira, resultando no empobrecimento da classe trabalhadora.

A reestruturação produtiva e o Neoliberalismo proporcionaram o processo de precarização e desvalorização da força de trabalho. David Harvey indicou que o processo de precarização atingiu os mais diversos países. Somente nos Estados Unidos, um terço dos 10 milhões de novos empregos criados na década de 1980 estavam na categoria de temporários. No Brasil, apesar do crescimento do trabalho formal na última década, 40 milhões de pessoas encontram-se em trabalhos informais (PNAD, 2014); apesar do crescimento significativo do salário mínimo, a concentração de renda ainda é um dos principais problemas no Brasil: apenas 1% da população brasileira possui uma renda maior que 20 salários mínimos (PNAD, 2011); o aumento do setor de serviços no país e a proliferação da terceirização intensificam a precarização do trabalho e salários.

Para os próximos anos, com a reorganização do grande capital e a tentativa de frear a queda da taxa de lucro, os projetos político-econômicos em congressos e parlamentos nas mais diversas nações beneficiarão o aumento da financeirização e especulação, desmantelamento de leis trabalhistas e terceirização. Esse fenômeno não é exclusivo dos trabalhadores do maior país da América do Sul, mas também em outros países, como está acontecendo neste momento na França. Em suma, para quem pensou que a classe operária chegaria ao paraíso com a guinada trabalhista nos anos 2000, verificamos agora que o paraíso nada mais é que um limbo pronto para empurrar os trabalhadores ao abismo que subjaz a obscura "Ponte para o Futuro".

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